A intenção do projeto foi a de explorar um vinculo entre a arquitetura de meio do século de Miami, de matriz moderna, com a tradição da arquitetura moderna brasileira. Do mesmo modo que arquitetura moderna, de origem europeia foi interpretada na américa do norte de modo original, houve uma interpretação e recriação desse movimento na américa do sul. Esse vinculo é reforçado pelas características climáticas e paisagísticas de Miami – um lugar ensolarado e próximo à zona tropical. Estabelecemos esses vínculos através da escolha de formas geométricas puras, especialmente o cilindro e o círculo, que são recorrentes na história da arquitetura local e na arquitetura moderna brasileira e também pelo uso de uma paleta de cores claras, próximas ao branco, outra característica comum às duas tradições. Uma referencia inicial importante foram os edifícios dos correios de Miami, as obras do escultor brasileiro Sergio Camargo, a luminosidade das piscinas americanas de David Hockney [veja imagens anexas] ou mesmo projetos contemporâneos, sensíveis também a essas recorrências, como é o caso da fundação Faena, do OMA, recém inaugurado na cidade.

 

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A partir dessas imagens decidimos criar um espaço que não tivesse ângulos retos, construídos apenas por planos curvos – segmentos de cilindro – como se o ambiente fosse um vazio de conexão entre esses volumes pré-existentes.

O local da implantação – Miami Design District – é um empreendimento comercial relativamente novo, formado por um conjunto de lojas relacionadas ao design em acepção ampla. A cidade de Miami tem uma forte conexão com o universo latino americano, tanto com os de língua espanhola como com os falantes de português, pela grande quantidade de turistas brasileiros que a frequentam. Por isso faz sentido para nós a tentativa de conexão entre os dois universos culturais através do espaço e da arquitetura.

 

 

O projeto conta com uma paleta reduzida de materiais, em tons de cor similares. São materiais com origem natural mas processados industrialmente. Embora mantenham a irregularidade e aspereza própria dos materiais naturais tem a marca do trabalho e da indústria. Concreto, polished plaster, terrazzo floor, em tons quentes do cinza ao branco. A intenção é manter a pureza formal das geometrias simples com suas superfícies lisas, mas com imperfeições, rugosidade e porosidade, como se o ambiente fosse formado por grandes pedras, muito simples mas com variações e nuances de textura e cor. Uma natureza recriada, controlada.

Evitamos ao máximo a utilização de elementos que remetam a um ambiente domestico, como mobília. Eliminamos ao máximo o a quantidade de objetos. Os produtos são expostos em recessos nas paredes e não em prateleiras, os balcões de teste e o ponto de vendas são do mesmo material do piso, como se fossem afloramentos naturais e não objetos autônomos. A iluminação também é baseada em pontos de luz instalados em recessos no forro de gesso, sem equipamentos aparentes. A vegetação aflora de buracos no elemento de fachada, sem vasos, ou suportes destacados da arquitetura.

A única exceção é a poltrona com desenho de Lina Bo Bardi, arquiteta italiana que trabalhou no Brasil na segunda metade do século passado e é um exemplo dessa mediação bem sucedida entre o modernismo europeu e sua releitura tropical, incorporando a aspereza e rudeza dos processos artesanais de produção com um pensamento conectado com a produção industrial. Além da adequação ao contexto histórico e conceitual que serve de referência ao projeto, a poltrona escolhida é uma semiesfera estofada sobre um pé metálico levíssimo, reforçando o repertório formal dos demais elementos do espaço, que evita os ângulos retos.